Como Coimbra é um antro de personagens sarnentas e de comportamentos esquizo-demento-parasitas, eu, na qualidade de personagem sarnenta e de comportamento esquizo-demento-parasita, fico sempre como que receptivo a estas convivências que me surpreendem a vários níveis, como a que passarei a contar:
Acordei no primeiro dia de aulas do semestre ao início da tarde. Vi Lost que saquei às quatro da madrugada e bebi um Yoggi de cujo sabor não me recordo.
Fui, obviamente, tomar café à alta de Coimbra, a um café tradicional muito agradável cujos habitantes são alvo do escárnio estudantil. Posto isto, fico sentado de frente para a porta e, passados dois ou três momentos de fumar o meu cigarro, o António cumprimenta-me ainda fora do café e, quase como se eu o tivesse convidado, ele entra e vem ao encontro do shake-hands desbloqueador de pedidos. Mas bem, o António, como é claro, pergunta-me se sou de alguma república ao qual respondo que não. Ele diz que chegou agora de Paris e que precisa de um sítio para dormir. "De Paris?" pergunto eu. "Sim, trouxe umas canetas" e mostra o que trouxe, canetas, iguais às que existem cá, juntamente com um souvenir da torre Eiffel, de uns quatro centímetros. E só pela história, lá lhe paguei o café a seu pedido. E, depois de me convidar a fumar um charro, convite que neguei, ele pergunta-me:
— Mas moras numa casa? Com a tua namorada? E não dá para me deixares à entrada para não dormir ao relento?
E é aqui, só aqui, que eu digo (aliás, penso):
— Oh António, tu não entras lá porque, como deves compreender, é chato. Tenta nas repúblicas que é na boa.
Mas muito bem, foi assim, e mais tarde vi-o com outra gente, a dar canetas (isto das canetas é intrigante!)





